Publicar artigos, a cachaça do cientista

Dupla de Araraquara vê alunos lucrarem com produtos
por Eduardo Nunomura
O químico Elson Longo e o físico José Arana Varela sabem mais sobre um tipo de cerâmica de materiais do que americanos, europeus ou japoneses. Amigos de décadas, iniciaram um casamento científico que criou dispositivos copiados no mundo todo, os varistores. Podiam estar ricos, como começam a ficar agora as segunda e terceira gerações de pesquisadores que viraram empresários.
“Queremos que nossos alunos tenham oportunidade de sair do nosso grupo e num curto prazo arrumem um emprego”, afirma Longo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC). A história dele e do hoje pró-reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Varela renderia um livro sobre a aventura de produzir ciência no País.
Em 1989, os dois foram chamados pela Companhia Siderúrgica Nacional para resolver um problema num alto forno. Técnicos japoneses teimavam em dizer que era um problema termomecânico e a única solução seria derrubar o equipamento e construir um novo. Ao chegarem lá, os dois viram uma parede “chorando”, e logo detectaram que a sílica estava sendo corroída pelo óxido de ferro. Filtros serviriam. A empresa de Volta Redonda economizou milhões de dólares e os cientistas receberam, em troca, só uma “comida e dormida”.
“Fomos lá de bestas, mas aprendemos que há grandes problemas a que a universidade pode dar a solução”, diz Varela. Desde então, a parceria entre a CSN e os professores já rendeu quase 50 projetos, 17 pedidos de patente, 11 prêmios, 5 doutorados, 3 mestrados, 12 programas de iniciação científica, um prédio doado pela empresa e a satisfação de saber que a produção anual de aço da companhia saltou de 4,2 milhões para 5 milhões de toneladas.
Na década de 90, os dois cientistas ajudaram a empresa 3M a montar no interior uma fábrica de varistores, o dispositivo que controla variações de voltagem. Foram surpreendidos quando a matriz americana abortou os planos e decidiu produzir pára-raios lá fora. Ao menos, tiveram tempo de ensinar seus alunos a construírem uma fábrica.
“Existe risco de perdemos essa inovação”, diz o pesquisador Paulo Roberto Bueno, que trabalha com a dupla. O jovem doutor em físico-química lembra que o País, para produzir a pesquisa de ponta em nanotecnologia, ainda importa a matéria-prima, os óxidos, materiais cerâmicos. Falta dominar a cadeia completa.
Do CMDMC, cuja sede fica na Unesp de Araraquara e reúne outras três instituições que se especializaram em nanotecnologia, já saíram sete spin-offs, as empresas originárias do meio acadêmico. Quatro delas vão de vento em popa.
Uma delas é a Nanox, que utiliza a nanotecnologia para produzir de bebedouros estéreis até chapinhas e secadores de cabelo antibactericidas. Alunos e ex-alunos de pós-graduação, Luiz Gustavo Simões, Daniel Minozzi e André Araújo montaram um spin-off para atender a uma empresa que tinha problemas de entupimento de fornos (tubos) de pirólise. Desenvolveram uma solução de inspiração acadêmica que economizou milhões de reais à empresa.
“Só o valor com os novos produtos que criamos já geraram em impostos mais do que os R$ 500 mil que recebemos da Fapesp”, afirma Simões. E ainda há mais negócios prestes a ser fechados, como a produção de um aerossol antibactericida para aparelhos de ar-condicionado ou mesas cirúrgicas de hospitais. A Nanox contrata 15 funcionários e, de tão dinâmica, atraiu há poucos meses um venture capital, fundo que investe recursos em empresas promissoras.
Quando indagado se não seria ele quem devia estar ganhando dinheiro com tudo o que sabe, Elson Longo diz estar feliz pelos rendimentos financeiros dos alunos. “A universidade tem de ir atrás do conhecimento, que é mais importante que o dinheiro. Minha cachaça é outra, produzir artigos científicos”, brinca.
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